São
José do Calçado: O Patrimônio
do Divino, popularmente conhecido como Jacá, é
um dos três distritos de São José do Calçado.
Para se chegar até lá a viagem é feita
por uma estreita estrada de terra com aproximadamente 6km. No
caminho a paisagem é exuberante, o viajante é
agraciado pela visão constante da Pedra do Pontão
e das belas montanhas que cercam o município de Calçado.
No meio do trajeto é possível apreciar a centenária
Fazenda da Serraria, que preserva a arquitetura original do
início do século passado.
Chegando
ao distrito, o viajante sente como se tivesse voltado no tempo.
Apesar de algumas melhorias do mundo moderno, ainda é
possível assistir as pessoas conversando preguiçosamente
e sentadas à frente de pequenas casinhas, que mantém
um estilo de construção representando a cultura
do homem simples do interior.
Continuando
a caminhada no sentido norte, inicia-se a subida de uma das
mais belas montanhas que cercam o município, o Vale do
Jacá. A visão que se tem do alto da serra é
deslumbrante. O vale verde, as montanhas acinzentadas contrastando
com azul do céu e as casinhas da Vila ao pé da
serra, enchem os olhos do visitante.
Em
1991, com a promoção da Vila do Patrimônio
do Divino a distrito, Herculano Teixeira de Siqueira, neto de
seu Cajão Teixeira, escreveu um artigo no jornal A ORDEM
sobre o avô, que pode ser considerado como o fundador
da Vila, já que foi quem doou as terras para sua implatação.
Tal artigo é transcrito a seguir.
A
PROPÓSITO DO PATRIMÔNIO DO DIVINO
O velho João Teixeira de Siqueira
Dutra, o "vovô Cajão", esteja aonde estiver,
provavelmente no Céu, conforme ele acreditava firmemente
quando em vida, deve estar muito feliz com a promoção
da Vila do Patrimônio do Divino a distrito. Devemos, pois,
nos congratular com essa iniciativa da Câmara Municipal
e, principalmente, com a manutenção do nome do
Divino Espirito Santo, já que este era um ponto em que
o vovô não abria mão. Se alguém,
em sua presença, se referisse ao povoado como "Jacá",
ele não gostava e corrigia logo: “Jacá não,
é o Patrimônio do Divino Espírito Santo,
que foi desmembrado da Fazenda da Ligação".
A devoção dos Teixeira de Siqueira ao Divino Espírito
Santo está ligada, ou estava não sei, pois os
tempos mudaram, a origens bastante remotas.
Para entendê-la, devemos consultar os registros do saudoso
primo Zico Camargo, que estudou a história da família.
Zico
Camargo, durante vários anos, incansavelmente, percorreu
dezenas de cartórios de toda a região, incluindo
o sul do Espírito Santo, norte do Estado do Rio e a Zona
da Mata de Minas Gerais, consultando e catalogando os mais diversos
tipos de registros, desde os nascimentos e óbitos, até‚
as escrituras de propriedades, inventários, contratos,
e o que mais achasse que se referisse a um Teixeira ou Siqueira.
Ele costumava brincar, dizendo que era gente demais, tinha gente
importante, homens de saber, doutores, e também‚
muita gente sem importância, tinha encontrado até‚
"ladrão de cavalo".
Segundo apurou, a história começa no final do
Século XVIII, logo depois da morte de Tiradentes, quando
chegou ao Brasil um português, Francisco Teixeira de Siqueira.
Era um homem muito habilidoso: pedreiro, carpinteiro, ferreiro,
mecânico, fazia de tudo. Não gostando do Rio de
Janeiro, seguiu para o interior de Minas e conseguiu serviço
na fazenda Ribeirão do Tejuco, de propriedade do Coronel
Domingos Gonçalves Magalhães, na região
onde hoje fica o Município de Rio Pomba. Caindo nas graças
da família, casa-se com a filha do Magalhães,
dona Felicíssima Roza D'Oliveira. E assim, surgem os
Teixeira de Siqueira no Brasil.
O casal teve quatorze filhos, dos quais dez resolveram migrar
para a região do norte do Estado do Rio e sul do Espirito
Santo, que estava em início de colonização
.Dona Felicíssima, já viúva, entregou aos
filhos uma relíquia da família, uma coroa e o
cetro do Divino Espírito Santo, vindos de Portugal e
que eram de muita tradição, recomendando que continuassem
com a devoção.
Segundo
seu Zico, essa tradição de religiosidade e fé
no Divino Espírito Santo já vinha dos ancestrais
da família, em Portugal. Normalmente, por época
de Pentecostes, todos os parentes se reuniam e comemoravam.
Eram realizados os mais variados festejos: procissões,
quermesses, novenas, orações em comunidade, etc.
Esses costumes continuaram aqui em nossa região por muitos
anos. As relíquias, pelo que sei, encontram-se na Igreja
Matriz de Bom Jesus do Itabapoana. A Festa de Agosto de Bom
Jesus teve sua origem nessas comemorações em honra
ao Divino Espirito Santo.
O filho mais velho do casal patriarca chamava-se Domingos Teixeira
de Siqueira e também veio para a nossa região.
Ele morreu cedo, com quarenta e poucos anos, de um ataque cardíaco,
durante uma viagem que fez a Minas para visitar a mãe.
Entretanto deixou nove filhos, entre os quais o pai do vovô
Cajão, João Teixeira de Siqueira Magalhães,
o "vovô Teixeira", que foi tenente-coronel da
Guarda Nacional e um homem de muito saber.
Assim se explica o porquê de "Patrimônio do
Divino" do novo distrito de nosso município, que
se originou com uma doação de Cajão Teixeira.
Por sinal, é bom lembrar que houve um pequeno incidente
na época da doação. Consta que vovô
se comprometeu a doar meio alqueire, que atendia as necessidades
das famílias que já moravam na área. Como
alguns filhos não concordassem com a doação
e ponderassem em contrário, o velho teimoso resolveu,
"vou então é doar é um alqueire".
Não sei se isto de fato ocorreu, temos que confirmar
nos documentos do cartório.
Cajão Teixeira foi uma pessoa muito especial em seu tempo.
Gostava de dizer as coisas indiretamente, se expressando através
de uma simbologia toda própria, utilizando-se sempre
de ditos populares, parábolas, charadas e trocadilhos.
De temperamento tranqüilo e bom, afável, meio filósofo,
tinha muitos amigos. Uma de suas características principais,
que aliás é freqüente na família,
era o modo de ver a vida com um certo fatalismo. Absorvia as
adversidades com muita resignação e tranqüilidade,
talvez devido à sua fé‚ católica.
Em todas as casas que mandou construir, e foram várias,
em Calçado, no Patrimônio do Divino, na sua fazenda,
ele mandava desenhar na fachada principal algo enigmático
que em geral deixava as pessoas intrigadas.
Um dos casos mais lembrados dele, que me recordo, é o
caso do tio Aimbiré. Tio Aimbiré, gente fina,
sobrinho do vovô Teixeira, de quem muito nos orgulhamos.
Meu
pai já era então casado com uma das filhas do
"João Pimenta", o João José Pimentel,
um dos homens mais ricos e festejados do Município, e
de saudosa memória. Tio Anito queria casar-se com outra
e vovô Cajão foi encarregado de pedir o casamento.
Mas, não sabemos por que razões, João Pimenta
não consentiu, respondendo em termos muito dele: "compadre,
você me desculpe, mas eu não costumo tirar duas
embiras de um pau só". Vovô Cajão ficou
meio aborrecido, mas como era de seu temperamento, absorveu
com tranqüilidade a negativa. Alguns anos mais tarde, quando
tio Aimbiré casou-se com a caçula de João
Pimenta, o velho Cajão procurou o compadre para desabafar
e disse-lhe: "é, pois é compadre, daquela
vez você não aceitou o casamento do Anito com a
Zeca, dizendo que não tirava duas embiras de um pau só,
mas agora parece que mudou de idéia‚ não?
Ou você não sabia que Aimbiré‚ embira
é?". Assim ele queria dizer que Aimbiré era
um primo muito chegado e, portanto, também‚ de
sua família.
Aos 88 anos de idade, já doente e acamado, em seu leito
de morte, um amigo lhe perguntou por brincadeira:
Como é seu Cajão, o grande Jequitibá ainda
levanta desta vez, ou agora cai de vez?
Ao que ele retorquiu:
Jequitibá não, braúna e da boa. É,
pois é, mas desta vez ela vai cair. Como sabemos, braúna
é uma madeira negra, muito mais dura que jequitibá,
usada para moirões de cerca.
Ele estava completamente lúcido e morreu lúcido,
daí há alguns dias. No momento de morrer, pediu
a um filho que o amparava que o levantasse, pois queria morrer
de pé. E assim ocorreu.
Eu fui ao enterro. Por solicitação dele, a Banda
de Música do seu Elpídio, em uniforme de gala,
acompanhou o féretro e tocou a sua valsa predileta: "Saudades
do Matão". Em vez de ficar alegre, como era seu
intento, para mim o enterro ficou mais triste ainda.
H.
Teixeira de Siqueira