R E P O R T A G E N S   E S P E C I A I S
GEIR CAMPOS, O NOSSO POETA MAIOR
Dados Biográficos:



Nasceu em São José do Calçado-ES, em 28/02/1924, filho de Getúlio Campos e de Nair Nuffer Campos. Estudou no Colégio Pedro II (internato e externato) Fez o curso de oficial da Náutica, na Escola de Marinha Mercante do Rio de Janeiro, formando-se com louvor (1º aluno). Atuou como piloto de navios mercantes durante a segunda guerra mundial e recebeu, por isso, o título de ex-combatente civil. Jornalista profissional desde 1952, foi redator de programas da Rádio Ministério da Educação e Cultura, de 1955 a 1982. Foi Professor Adjunto da Escola de Comunicação da UFRJ, onde lecionou técnicas de tradução. Bacharel em teatro pela Escola de Teatro da UNI-RIO (na época, chamava-se FEFIERJ/MEC), mestre e doutor em comunicação pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Geir Campos traduziu, para nosso idioma, poemas de Shakespeare, Whitman, Brecht, Rilke, Sófocles, além de outros trabalhos de grandes nomes da literatura mundial.


Algumas obras

Rosa dos rumos (poesia) 1950
Arquipélago (poesia) 1952
Coroa de sonetos (poesia) 1953
Da profissão de poeta (poesia) 1956
Canto claro & poemas anteriores (poesia) 1957
Operário do canto (poesia) 1959
Metanáutica (poesia) 1970
Operário do Canto (poesia) 1959
Canto de Peixe & Outros Cantos (poesia) 1977
Castro Alves ou o Canto da Esperança (teatro) 1972
O sonho de Calabar (teatro) 1959
Canto provisório (poesia) 1960
O vestíbulo (contos) 1960
Pequeno dicionário de arte poética (referência)1960
Carta aos livreiros do Brasil (ensaiso) 1960
Cantigas de acordar mulher (poesia) 1964
Poesia Alemã Traduzida no Brasil (antologia) 1960
Poesia da Alemanha (antologia)1966
As Sementes da Independência (teatro) 1972
Cantar de Amigo (poesia) 1982

FONTE: ELTOM, Elmo. Poetas do Espírito Santo
FCAA/UFES.1982





 

 

 

 

 


Cacos poéticos

 

RESÍDUO

Tanta cal, tanta cinza, tanto incenso e o vôo impraticável e o pesado projeto de cruzar o rio a nado e o caminhar feito um esforço imenso.

Raro sujeito mostra-se propenso
a alar as rédeas do seu próprio fado:objeto, o mais geral aceita alheado toda a cal, toda a cinza, todo o incenso.

Contra a revolta, a palha da rotina; há aquele gesto ou grito que termina trocando uma bandeira por um lenço,

e então seguir é ir carregando a estrada nos ombros - e com ela carregada vai a cal, vai a cinza, vai o incenso.


               ICEBERG

É claro que, apesar do meu empenho em não mostrar de mim mais que o amigo,não é todas as vezes que consigo esconder o que tão guardado tenho:

se vejo alguém franzir o sobrecenho a uma coisa qualquer que faço ou digo,mudo de assunto, finjo que não ligo,e por pouco não me desavenho...

É um iceberg dentro do meu ser
este amor que de si mal deixa ver
um décimo, com nove mergulhados:

Ilha densa de espanto que navega, dos pólos traz uma energia cega forçando as águas por todos os lados.

METANAUTICA

Posso te dar a carta de marinha
mas o traço que nela insinuasse
um entre tantos rumos
não

Posso te dar as tábuas de marés
mas a leve emoção de cavalgar
onda a onda após onda
não.

Posso te dar os índices das águas
conforme as densidades, mas a branda
flutuação do casco
não.

Posso te dar a rosa e o timão
mas o desequilíbrio concertante
ao balanço de bordo
não.

Posso te dar exemplos de ancoragens
mas o galeio do barco seguro
retesando as amarras
não.

Posso te dar o longe no binóculo
mas acolá das lentes e paisagem
convidando à viagem
não.

Posso te dar notícia do mar calmo
mas o rumor das franjas no espelhado
junto à roda de proa
não.

Posso te dar o gorro marinheiro
mas a pressão do linho nos cabelos
enquanto sopra o vento
não.

Posso te dar a direção da chuva
mas o gosto da baga salitrada
escorrendo no rosto
não.

Posso te dar posturas de sextante
mas o fulgor da estrela observada
entre horizonte e prisma
não.

Posso te dar os nomes de alguns peixes
mas o espanto de vê-los acender
fosforescentes rastros
não.

Posso te dar frios conhecimentos
mas o que se acalanta no convívio
amoroso do mar
não.


GRANDEZA

Deve ser infinito, deve ser
de uma grandeza fora do comum
o que em nós três se expande a cada um traz mais riqueza, sem se empobrecer.

Deve ser absoluto, num crescer
que não parece conhecer nenhum
limite - ou talvez só conheça algum que nem mesmo chegamos a entrever.

Qual será? Que será? Como será?
pergunta-se e resposta não se dá
que não a própria vivência tão rica...

Alguma operação se faz, porém
matematicamente não sei bem
se se divide ou se se multiplica.

ALVOROÇO

Dizem que quando a ponta de um espinho
agride alguma célula da pele,
as células do tecido vizinho
aprestam seus núcleos em torno dele.

talvez o mesmo efeito se revele
se em lugar de agressão for um carinho
a arrepiar algum ponto da pele
- um beijo, por exemplo, não espinho.

Carinho ou agressão chama a correr
alvoroçadas reservas do ser
a tais toques de alarma ou de desejo.

Talvez não seja mais que uma impressão
mas - toda vez que vou beijar-lhe a mão,
sinto-a vir por inteiro à mão que beijo...

A ARMADURA

A antiga fé, que ao gesto te obrigava e te animou para a aventura e a guerra:era do corpo, que tornou à terra?ou da alma que esse corpo alimentava?

Se era a do corpo, a tua lei - descansa:deixa minar-te aos poucos a ferrugem,deixa que as plumas e o metal se sujem ao pó que no ar do mostruário dança.

Porém se a carne era somente o engaste dessa vontade que vestiste um dia com tanto brilho, tanta galhardia,

que esperas ainda para, num violento gesto, voltar à vida que deixaste?Já a tua inércia é um acontecimento.

A ÁRVORE

Ó árvore, quantos séculos levaste
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?

Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?

Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências - que o vigor consomem
entre vigilias e cismares mudos -

demoraste aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo?
E dize-me, há esperança para o Homem?

POEMA-BILHETE

Amigo, este meu canto não é manso nem de manso cantar seria a hora. Revivo as página da História e vejo que, se em cada uma existe alguém que chora, razão de pranto mis que em todas elas sobeja na que se rascunha agora: com cães de armas por toda parte à espreita entre miras vacila e se apavora o gado humano, sem saber se a luz que se desdobra no horizonte é mais reflexo de tarde ou clarão de aurora ou mais fogo de bomba maquinada por um gênio às avessas que decora o alfabeto do inferno e que, por ele bem soletrando a morte, a vida ignora...

Sabendo e amando a vida, o verso enrija-se e o canto é como quem finca uma escora contra o a-b-c do diabo, contra o cão
do gatilho suspenso, contra o fogo que no céu se desdobre e ali não seja reflexo de tarde ou clarão de aurora.

8ª CANTIGA DE ACORDAR MULHER

Vozes da esquerda, surdas, e vozes da direita, afinadíssimas, hão de louvar-te a arte de ser mulher:
mansa como uma ovelha, dócil e generosa como uma árvore a se multiplicar em sombra e frutos, como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso crente em ser esse o teu ideal de vida...
Acorda: pois foi essa a sorte que escolheste?


9ª CANTIGA DE ACORDAR MULHER

Um dia te acharás sem inteirar a casa:
ouvirás o marido ressonando, os filhos dormindo em calma...
O espelho te acenará, te lembrará coisas da mocidade, coisas da meninice, te mostrará vindas algumas rugas; contemplará o espelho, o quarto, a casa; perguntarás por ti mesma, pelo teu próprio destino -e o espelho fará silêncio: será o sinal de estares acordando.

 

ACALANTO

Exaustos de fotografar a vida
em seus sessenta aspectos por minuto, adormecem os olhos no aconchego de crepúsculo antigo e sempre novo: as imagens do dia, prisioneiras entre as dobras das pálpebras, discutem argumentos possíveis para um sonho
.

             CARACOL

Também dono do mundo és, e, dono, impões o teu direito de vagar por ele como um rei que devagar anda por seus palácios e jardins, à hora da sesta, quando o gordo sono dobra ainda mais sobre o peito a cerviz ao rude camponês e ao bom fidalgo.
Como esse rei, também procuras algo achável só na terra, de que és filho; e enquanto assim te perdes na procura teu rastro marca, com molhado brilho,
as fronteiras do reino que inaugura.

 

LIÇÃO

Sai, desse livro, meu filho, e dá um pulo cá fora: olha esta rua onde boiada não passa
nem passa boi mas moreninha do cabelo cacheado passa e passa morena e passa branca e passa branco numa lição de cores brasileira humanizando o azul da tarde franca.
Agora vai naquele muro e caligrafa este exercicio: "Abaixo o Homem Sanguessuga do Homem!" Depois, querendo, volta a ler teu livro.

             PENTAGRAMA

Unimúltipla à tona de meus rios
tua figura azula o fundo e vem
crescente em luz de maravilha sem
nada perderem meus olhos vadios

pelas paragens de teu corpo e nem
esquivar-se meu tato aos desafios
dos poros todos e todos os fios
de ti presente em mim e por meu bem

numa galáxia tépida de cheiros
a eletrizar encontros verdadeiros
enquanto liquefazem-se torrentes

de pérolas de salso paladar:
então te fazes música no ar
e te vais para vindas diferentes.


Cama-sutra

*
o amor
como quem
faz com o corpo
uma obra
de arte.

*
Amor
com amor
se faz.

*
Os que sabem,
fazem amor;
os que não,
têm relação.

Parábola do moinho d'água

A fala irrespondível, o conselho
fora de dúvida, não esperes de mim:
qualquer pessoa, por mais que te ame e sonhe dar-se a ti ou te deseje e te sonhe possuir, não te poderá dar mais que um resumo de vida já provada, por seus acertos contente e por seus erros magoada.
Moinho novo, tu és: a gente a querer mover-te é água passada.


                        SUBSALTO   

Perdi o dom da surpresa:
tudo pode acontecer.