A
história política do município de Bom Jesus
do Norte tem início em 5 de abril de 1895, quando a Câmara
Municipal da Vila do Calçado cria e dá nomes oficiais
a todos os seus distritos. Dentre eles estavam os do Jardim e
da Barra do Calçado, que, na década de 1930, se
fundiriam com o nome de distrito de Bom Jesus do Norte. Na realidade
não existe nenhuma lei criando esse distrito, em todos
os livros de atas da câmara municipal, naquela década
ou nas anteriores a ela. Acredito que o início da Revolução
de 30 e a confusão dos interventores e prefeitos nomeados
tenham sido as causas dessa falha.
Mas
o fato é que nos documentos oficiais da época já
constava o nome do distrito como sendo Bom Jesus do Norte. Anteriormente,
nas décadas de 1910 e 1920, aquela cidade tinha o nome
de Bom Jesus do Jardim, o que significava que era a sede do distrito
do Jardim. Também, em 1º de fevereiro de 1921, a câmara
municipal de Calçado aprovou uma lei, e o prefeito sancionou,
dando nome ao povoado de "Cassiano Castello", que tinha
sido o primeiro juiz da comarca (segunda instalação),
em 1916, e que mais tarde seria o patrono dessa mesma comarca.
A ponta de terra em forma de ferradura, onde hoje está
o centro da cidade de Bom Jesus do Norte, sede do município,
depois de 1890 pertencia, territorialmente, ao município
de São José do Calçado. Aquela "península",
como dizia o Padre Mello, também fazia parte da grande
extensão de terras da fazenda de Carlos de Aquino Xavier.
Essa fazenda, que fazia divisa com o Rio Itabapoana, se estendia
por todas as vertentes ao redor da atual cidade.
Documento
com o primeiro nome de Bom Jesus do Norte,
datado
de 30 de novmebro de 1920.
Termo
de Contrato: Para a construção de uma ponte
sobre o valão, em terrenos do senhor Lúcio Fraga,
na estrada de rodagem que parte da Estação de
"Bom Jesus do Jardim", districto deste município,
com o empreiteiro senhor Sebastião Teixeira Borges, residente
no mesmo districto, na forma que se segue:
Aos trinta dias do mez de novembro de mil, novecentos e vinte
(1920), nesta Villa do Calçado, Estado do Espírito
Santo, na Secretaria da Prefeitura Municipal, perante mim, Durval
Medina, secretário da mesma prefeitura, compareceram as
partes justas e contractadas, o senhor Francisco Teixeira Garcia,
prefeito deste município, e o contractante, senhor Sebastião
Teixeira Borges, que combinaram a construcção de
uma ponte sobre o valão em terrenos do senhor Lúcio
Fraga, na estrada de rodagem que parte da Estação
de "Bom Jesus do Jardim" districto deste município,
sob as condições contractadas. Pela contractante
foi eshibido o talão nº 171, desta dacta, assignada
pelo colletor estadual desta villa, Pedro Medina, provando ter
pago a quantia de Rs$ 4.000,00 (quatro mil réis) de sello,
por este contracto. E eu, Durval Medina, secretário, o
escrevi.
(ass)
Francisco Teixeira Garcia
Sebastião Teixeira Borges
Documento oficial
do segundo nome de Bom Jesus do Norte, aprovado pela Câmara
Municipal de São José do Calçado, em 1º
de fevereiro de 1921.
Lei
Municipal n° 45 de 1° de fevereiro de 1921
O prefeito municipal do Calçado, usando de atribuições
que lhe são conferidas pela Lei da Organização
Municipal, manda que tenha execução a presente lei,
votada pela câmara:
Art.
1° - O povoado existente neste município, no Distrito
do Jardim, no ponto terminal da Estrada de Ferro "Peralva",
denominar-se-á "Cassiano Castello".
Art.
2° - Revogam-se as disposições em contrário.
Prefeitura
Municipal da Villa do Calçado,
em
1° de fevereiro de 1921
(Ass.)
João Marcelino de Freitas
Carlos Xavier, mineiro de Mar de Espanha, era o filho caçula
do casal Joaquim Francisco Xavier (sobrinho-neto de Tiradentes)
e Maria Tereza de Aquino Xavier. Como seu irmão, Julio
de Aquino Xavier, que já se instalara numa fazenda na região
de Santo Eduardo, por volta de 1870, Carlos também posseou
150 alqueires nas margens do Rio Itabapoana. Ali ele se instalou
com sua família, agregados e dezenas de escravos, tendo
participado ativamente da política da vizinha cidade de
Bom Jesus do Itabapoana. E foi fornecido por ele, todo o madeirame
para a construção da antiga ponte de madeira que
ligava suas terras àquela cidade.
Uma parte dessas terras, onde hoje está a sede do município,
foi herdada por seu filho Leopoldo Xavier, numa partilha que fez
em vida. Posteriormente, por volta de 1912, essa "chácara"
foi vendida por 25 contos de réis, para o comerciante Carlos
Firmo, de Bom Jesus do Itabapoana. Nessa época existiam
apenas 3 casas no local: a sede da chácara e dois casebres
de colonos. A primeira ponte de madeira, construída em
1878, (depois do escritório da CEDAE), foi totalmente destruída
na grande enchente de 1906, a maior que se tem registro na região.
Reconstruída pelas madeiras fornecidas por Carlos Xavier,
foi depois, reforçada em 1914, para agüentar o tráfego
que aumentou com a inauguração do terminal ferroviário
de Bom Jesus do Norte. A única fonte de referência
do histórico dessa ponte é um relatório do
Cônego Aureliano Procópio Lopes, pároco da
freguesia de São Pedro do Itabapoana, datado de 1879, onde
ele diz o seguinte:
"Essa
ponte foi aberta ao pôvo em 1878. Tem 70 metros de comprimento
e cinco de largura. Por ella passão as tropas que trazem
café e outros generos que da provincia concorrem ao mercado
da capital do Imperio, para onde seguem, ou pela Estrada de Ferro
Campos a Carangola, ou pelos barcos que sulcão o Itabapoana
e fazem viagem entre a côrte e a Barra do Itabapoana".
O nome da cidade de Bom Jesus "do Norte", apesar de
estar no sul capixaba, tem origem no fato de ela ter começado
a ser habitada, após a inauguração do terminal
ferroviário em 1914, por famílias e comerciantes
de Bom Jesus do Itabapoana, que fica no "Norte" Fluminense.
Padre Mello, dizem, chegou a cogitar da abertura de um canal,
que ia da altura da atual Praça São João
à beira linha, passando aquelas terras para o lado fluminense.
Mas, com a perda da sede de São Pedro, para o distrito
de Mimoso, em 1930, vários fazendeiros "capixabas"
daquela região, indignados, começaram a construir
suas casas, também, em Bom Jesus do Norte. Aí a
idéia não vingou mais.
O Distrito de Bom Jesus do Norte foi muito privilegiado pelos
prefeitos nomeados de Calçado, no período do governo
e da ditadura Vargas (1930 - 1945). Este fato deu um grande impulso
à sede do distrito, que já era privilegiado com
o terminal ferroviário, por onde escoava toda a produção
do município. Também pelo fato daquela cidade já
contar com um grande grupo escolar (Horácio Plínio)
e o Colégio Rio Branco, no outro lado da ponte. Nesse período
foi até tentada a transferência da sede do município
para Bom Jesus do Norte, mas, as lideranças políticas
de Calçado, na época (Dr. Pedro Vieira, Dr. Aristides
e João Marcelino de Freitas) reagiram. E a inauguração
do Colégio de Calçado, em 1939, foi a primeira reação.
Apenas
à guisa de curiosidade, na década de 1940 aquele
distrito tinha a Praça Astolpho Lobo e as seguintes ruas:
Rua da Estação, Rua 14 de Julho (seria a queda da
Bastilha?), Rua Fluminense, Rua Beira Rio (atual Getúlio
Vargas), Rua Bom Jesus, Travessa da Estação (atrás
da prefeitura), Rua Progresso (a mesma de hoje), Avenida Progresso
(atual Major Bley), Rua Carlos Firmo (a mesma), Rua Triângulo,
Rua Independência, Rua Beira Linha, Rua Pernambuco e Rua
das Paineiras (atual Alfredo Poubel).
A força política de Bom Jesus do Norte aumentou
muito com a ditadura Vargas. Para se ter uma idéia, na
única eleição desse período, a de
1934, a câmara municipal foi presidida pelo fazendeiro Eurico
Moreira de Faria, daquele distrito. Depois daquele período,
a câmara elegeu sempre dois ou mais vereadores bonjesuenses,
dos sete que tomavam posse. Mas, um se destacou nos mandatos legislativos
a partir de 1954: João da Silva Batista, que juntamente
com Milton Arêas (1962), Luiz Borges e Manoel Vieira Gomes,
entre outros importantes cidadãos do distrito, prepararam
o terreno para a emancipação do município.
A forte oposição do eleitorado de Bom Jesus do Norte
forçou esse processo e ela acabou acontecendo. E em 25
de março de 1963 (essa é a data da emancipação
do município) a Câmara Municipal de São José
do Calçado aprovou sua emancipação política
e administrativa. Posteriormente, em 25 de novembro de 1963, a
Assembléia Legislativa do Estado ratificou a criação
do novo município, que perdeu a ótima oportunidade
de corrigir o erro "geo-ortográfico" de seu nome
(voltando a se chamar "Bom Jesus do Jardim"), a exemplo
de centenas de outros municípios que assim fizeram.
Por
Pedro Teixiera
pedroteixeira.online@bol.com.br

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